ABRH-PR – Associação Brasileira de RH – Paraná

Mercado de trabalho amadurece e a estratégia ESG se torna pragmática para a gestão de pessoas

Dados mostram que a pauta social e ambiental virou critério decisivo para 88% dos profissionais e foca em reduzir custos de turnover

O mercado corporativo atravessa uma metamorfose silenciosa. Após ondas de comportamentos como o Quiet Quitting e a Quiet Ambition, um novo termo começa a circular nos corredores das grandes corporações: o Quiet ESG. À primeira vista, uma leitura superficial dos dados, como a queda de 15% na priorização do tema pelas empresas, apontada pelo Relatório de Tendências 2026 do Great Place to Work (GPTW), poderia sugerir que o interesse pela pauta ambiental, social e de governança esfriou. No entanto, os números de mercado revelam o oposto: o ESG não morreu, ele apenas amadureceu e se tornou pragmático.

O “barulho” das campanhas publicitárias de 2020 deu lugar a discussões técnicas no C-Level e em salas de conselho. Segundo o estudo da Bain Company de 2025, 90% das empresas de maior crescimento confirmam que a sustentabilidade impactou positivamente seus resultados. O que antes era ferramenta de branding e reputação, hoje é vetor de eficiência operacional, redução de custos e acesso a capital.

“O ESG hoje está mais presente na sala do conselho do que na mídia. Ele deixou de ser apenas uma narrativa de propósito para se tornar uma abordagem orientada a resultados, focada em diminuir riscos climáticos e jurídicos, além de abrir portas para novos nichos de mercado B2B”, analisa Carolina Pimentel, conselheira na ABRH-PR e CEO da Great People ESG.

Consumidor e mercado B2B dão o tom

A pressão não vem apenas de reguladores, mas da ponta final. A pesquisa da Bain Company com 14 mil respondentes mostra que 80% dos consumidores acreditam que suas escolhas individuais fazem a diferença, e 54% já utilizam Inteligência Artificial para tomar decisões de compra mais sustentáveis.

No universo B2B, a tendência é ainda mais drástica: até 2028, o ESG deve se tornar o segundo principal critério de compra, atrás apenas da qualidade. Metade das empresas consultadas já afirma que pretende interromper negócios com fornecedores que não atendam a critérios rigorosos de sustentabilidade.

Fator humano e o “S” invisível

No mercado de trabalho, a pauta é decisiva para a retenção de talentos. O Panorama de Empregabilidade da Sólides 2025 indica que 88% dos profissionais consideram o posicionamento social e as ações ESG de uma empresa antes de aceitar uma vaga. Curiosamente, embora o termo “ESG” pareça menos prioritário em algumas pesquisas, os desafios elencados pelos gestores no relatório do GPTW, como desenvolvimento de lideranças, comunicação interna e redução de turnover, compõem exatamente o pilar “Social” da sigla.

Até 2028, o ESG deve se tornar o segundo principal critério de compra, atrás apenas da qualidade
Até 2028, o ESG deve se tornar o segundo principal critério de compra, atrás apenas da qualidade (Foto: Freepik)

Para Carolina, a falta de “letramento” estratégico ainda faz com que muitas lideranças trabalhem esses temas de forma isolada, gerando retrabalho. “Muitas empresas passaram a temer a exposição e o risco de serem acusadas de greenwashing, o que as levou a fazer o ESG de forma silenciosa. Mas é preciso entender que o ‘S’ do ESG é o sistema que atrai profissionais qualificados e mantém o engajamento. Quando você investe em bem-estar e cultura, está diminuindo custos de desligamento e processos trabalhistas”, afirma a executiva.

O cenário para 2026 indica que o Quiet ESG é um sinal de maturidade, mas também um alerta. Se a discrição evita a polarização, ela também pode diminuir a capilaridade da agenda. No fim do dia, o mercado, que é soberano, deixa claro que o ESG deixou de ser uma opção ética para se tornar uma necessidade de sobrevivência competitiva. “As empresas que não integrarem essa visão estratégica correm o risco de ficar para trás, perdendo não apenas reputação, mas faturamento e talentos”, finaliza.